Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

A Loucura

" E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo são meus, a não ser que me compare a certos insensatos cujo cérebro é tão perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bilis, que constantemente asseguram ser reis, quando são muito pobres, estar vestidos de ouro e púrpura, quando estão nus, ou imaginar ser cântaros ou ter um corpo de vidro? Mas, qual! Estes são loucos, e eu não seria menos extravagante se me guiasse pelos seus exemplos".

Descartes, Meditações

 

 

A loucura, como retrata esta pintura de Hieronymus Bosch, parece distante e por vezes ficticia aos olhos da nossa realidade. No entanto, ao nivel da psicanálise esta pode surgir logo na infância, quando a criança no processo de subjugação à autoridade dos pais, vai modelando o seu eu interior, ou seja, há uma auto-traição, ela nega-se a si mesma e a forma como se vê passa a ser a forma como os pais a querem ver.

Agora, transportando isto para o adulto (e aqui esta personagem acompanhou-o na sua cavalgada insessante pela vida), damo-nos conta que afinal esta realidade não estava tão distante assim.

Ela habita paredes-meias connosco. Visita-nos constantemente. Quantas pessoas não perderam o contacto com o seu eu interior, criando desta forma, um eu falsificado? Ou ainda de outro modo, quantos de nós não encarnamos a personagem que os outros querem ver em nós?

É verdade, e aqui parafraseando o prof. Fernando José Bronze, que estamos constantemente a afivelar máscaras. Sejam elas a de professora, aluna, colega, esposa, irmã, filha, etc.  Mas também é verdade, que não podemos esconder as nossas vivências, percepções e sentimentos genuínos com que constantemente nos deparamos. É neste ciclo constante, do afivelamento de máscaras, que chegamos a um ponto em que verdadeiramente não sabemos quem somos, recalcamos de tal maneira a nossa verdadeira identidade que passamos a ser só por ser. É como se já estivessemos mortos mas sem saber.

Não será este relacionamento estranho com a sociedade que faz de nós mais loucos que os ditos loucos? Será a razão assim tão distante da sua madrasta loucura, ou serão simples irmãs zangadas e de candeias ás avessas com a vida?

Apelidamos de loucos aqueles cujas suas atitudes desvirtuam a dita razão, o convencional, e se afastam dos padrões "correctos e normalizados" mas será que aquele afastamento das nossas raizes humanas não será ele um vil ardil da negação de quem realmente somos? Ou será mais, a forma facilitada de fugirmos e ocultarmos os verdadeiros sentimentos humanos?

Talves, e caso optassemos por uma resposta positiva a estas questões, encontrassemos aqui, quem sabe, a razão pela qual é mais fácil odiar os outros, matar e voltar costas ao semelhante quando na realidade o que fazemos, é evitar o confronto connosco, com o nosso eu mais intimo.

Não será esta revolta,o ódio,o medo a si próprio que provoca este afastamento convulso do nosso ente querido?

Talves fosse mais fácil fazermos o processo de dentro para fora, sem vergonhas nem complexos. Como também referiu um professor meu de ontologia, é incompreensivel que o Homem tenha a pretensão de conhecer o universo quando ainda nem se conhece a si mesmo. Como é que podemos compreender os outros se constantemente fechamos a janela da nossa alma a nós e ao mundo?

Não somos quem queriamos ser, não fazemos o que desejámos fazer, enfim, sempre muitos nãos e poucas vezes sim.

Talves por isso, fiquemos surpreendidos quando alguém que consideravamos "de bem", "normal", "racional" de repente mata, viola ou rouba sem sabermos muito bem porque é que fez isso. Pois, na realidade, essa pessoa deixou cair a máscara sorridente e algumas vezes filantrópica e deixa destapado o horror que ocultava. Não será a loucura tudo isto? Ou melhor, não será a loucura um modo de vida?

É nesta fase terminal, aquela em que já não conseguimos colocar as máscaras e acabamos num protesto demoniaco contra tudo e todos.

Edvard Munch, Van Gogh, Schubert, Einstein, Nietzsche, etc, etc,etc, todos eles loucos, mas loucos saudáveis porque conseguiram dentro da sua loucura inteligente estravazá-la, de forma, a não serem consumidos por ela, e ... eis que o monstro sai sob a forma da mais bela arte. Como acima referi, também existiram aqueles cuja sua loucura teve frutos, mas que devastaram a humanidade e que não a sabendo manusear saiu sob a forma de terror. O individuo ao contrário daqueles cuja loucura é inspiração, porque deu-se a catarze, estes simplesmente largaram o monstro sem lhe ter posto as devidas rédeas.

É esta força criativa de se opôr à fraude que fá-los maiores e mais lúcidos que a maior parte de nós, cidadãos bem comportados, cuja virtude maior é a sanidade à semelhança Dos Tempos Modernos de Charlie Chaplin onde somos parte integrante da máquina. Em suma, os movimentos são sempre os mesmos, tanto ao nivel da esteira politica, religiosa...


 

 

 


publicado por osmosephilosofica às 12:33
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De Garf a 20 de Janeiro de 2008 às 22:10
José? Bronze? Ou será Francisco? E o Charlin? Acho que é Charlie! E ainda por cima: Chaplin, com C, o malandro...
Depois de um fim de semana com matança de porco, grades de "mines", e colestrol até cair p'ró lado, os comentários não podem ser os mais inspirados: além disso, estou mais uma vez a inventar de tudo para não ter que estudar.
Continuação de bons textos.


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